Reprodutibilidade na Biologia Evolutiva: uma nova cultura começa a ganhar espaço na ciência brasileira
- Matheus Salles

- há 10 minutos
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Em julho de 2026, a Sociedade Brasileira de Biologia Evolutiva (SBBE) realizou seu segundo congresso nacional, o SBBE26, na Universidade Federal de Minas Gerais, em Belo Horizonte. Foram mais de 750 participantes e 400 trabalhos submetidos, em um encontro que mostrou a vitalidade e a diversidade da Biologia Evolutiva no Brasil.
Entre apresentações, discussões e encontros, uma iniciativa teve um significado especial: a primeira edição do Prêmio de Ciência Aberta e Reprodutível em Biologia Evolutiva, realizada em parceria com a Rede Brasileira de Reprodutibilidade (RBR).
Mais do que reconhecer trabalhos individuais, a premiação representa uma tentativa de trazer para o centro da comunidade de biólogos evolutivos uma discussão que já não pode ser considerada secundária: como fazemos com que o conhecimento científico produzido seja mais transparente, verificável, reutilizável e, consequentemente, mais confiável?
Ciência aberta também é parte da Biologia Evolutiva
A Biologia Evolutiva tem uma relação particularmente forte com práticas que hoje associamos à ciência aberta. Grande parte da pesquisa contemporânea depende de dados compartilhados, bancos de sequências, ferramentas computacionais, fluxos de análise e métodos que precisam ser suficientemente bem documentados para que outros pesquisadores possam compreender e, quando necessário, reproduzir ou reutilizar uma análise. Ainda assim, a adoção dessas práticas não acontece automaticamente.
É preciso criar incentivos, reconhecimento e espaços para discutir como incorporar esses princípios à rotina científica. Foi justamente com esse objetivo que a SBBE, em parceria com a RBR, criou o prêmio.
Puderam concorrer trabalhos aceitos no SBBE26. A avaliação foi realizada pela diretoria da sociedade em conjunto com a RBR, considerando aspectos como transparência dos métodos, disponibilidade e organização dos dados e códigos.
A proposta era simples, mas importante: reconhecer pesquisadores que já estão fazendo ciência aberta e mostrar essas práticas para toda a comunidade.
Três trabalhos, diferentes formas de fazer ciência aberta
A primeira edição do prêmio reconheceu três trabalhos que ilustram a diversidade da pesquisa em Biologia Evolutiva.
O primeiro lugar foi para Bruno Cossermelli Vellutini, com o trabalho ‘Integrating genetics and tissue mechanics to understand the evolution of development’.
‘O segundo lugar foi para Leandro de Oliveira Costa, com ‘Cartografando um Continente Invisível: O Levantamento das Evidências sobre a Presença (e Ausência) da Evolução na formação médica’.
O terceiro lugar foi para Luiza Meira Victor Klippel, com ‘Phylogenetic Clustering of Invasive Fabaceae with Native Species in Brazil Contradicts Darwin's Naturalization Hypothesis’.

Legenda: Ao centro e próximos ao Matheus Salles (eu), ex-embaixador da RBR e atualmente representante da SBBE, temos Luiza Klippel e Bruno Vellutini, respectivamente 3º e 1º colocados. Leandro Costa, 2º colocado, não estava mais presente no momento da premiação. Nos cantos da imagem estão Junior Nadaline e Fernanda Caron, integrantes da diretoria da SBBE.
Os trabalhos são bastante diferentes entre si, em seus objetos, perguntas e abordagens. E isso é justamente parte da mensagem do prêmio. Ciência aberta não é um método específico ou uma característica restrita a determinados tipos de pesquisa. Ela pode ser incorporada a diferentes formas de produzir conhecimento.
Reconhecer essas iniciativas ajuda a tornar visíveis práticas que muitas vezes permanecem nos bastidores: dados disponibilizados para reutilização, códigos que permitem compreender e reproduzir análises, métodos descritos de forma transparente e decisões de pesquisa que podem ser acompanhadas por outros pesquisadores.
Mais do que um prêmio
Criar um prêmio pode parecer uma ação pequena diante dos desafios relacionados à reprodutibilidade na ciência. Mas iniciativas como essa têm uma função importante: alterar aquilo que a comunidade reconhece como excelência científica.
Durante muito tempo, a avaliação da pesquisa esteve concentrada principalmente em perguntas como quantos artigos foram publicados, em quais revistas e quantas citações receberam. Práticas relacionadas à abertura, documentação, compartilhamento e reutilização dos produtos da pesquisa nem sempre recebem o mesmo reconhecimento. Isso cria um paradoxo. Esperamos que a ciência seja verificável e cumulativa, mas frequentemente oferecemos poucos incentivos para o trabalho necessário para que ela seja, de fato, verificável e cumulativa.
Premiações como a criada pela SBBE e RBR ajudam a mudar esse cenário. Elas comunicam que disponibilizar dados, documentar métodos, compartilhar código e tornar uma pesquisa mais reutilizável não são apenas tarefas técnicas: são contribuições científicas que merecem ser reconhecidas.
Reprodutibilidade como tema de discussão
A premiação não foi a única atividade dedicada à ciência aberta no SBBE26. O congresso também recebeu um Simpósio de Reprodutibilidade, organizado como parte dessa parceria entre a SBBE e a RBR. A sessão reuniu a Dra. Ana Paula Lula Costa, embaixadora da RBR, o Dr. Mario Moura, da Universidade Federal da Paraíba, e o Dr. Gabriel Nakamura, da Universidade Federal de Minas Gerais.
Tive a oportunidade de mediar a sessão como representante da SBBE e acompanhar de perto a discussão. Um dos aspectos mais marcantes foi a participação do público: mais de 200 pessoas estavam presentes na sala. Esse número é particularmente significativo porque mostra que existe interesse real da comunidade de Biologia Evolutiva em discutir não apenas os resultados da ciência, mas também as condições e práticas que tornam esses resultados mais confiáveis.
A discussão sobre reprodutibilidade frequentemente começa com uma pergunta aparentemente simples: outra pessoa conseguiria entender e repetir o que fizemos? Mas ela rapidamente se torna uma discussão muito mais ampla. Como documentamos nossas análises? O que fazemos com os dados depois da publicação? Como lidamos com código e software? Como podemos reconhecer pesquisadores que investem tempo nessas práticas? E, talvez principalmente, como criamos uma cultura científica em que transparência e abertura sejam parte do processo de pesquisa, e não uma tarefa adicional realizada apenas quando possível?

Legenda: Eu e Ana Paula Lula Costa, atual embaixadora da RBR e palestrante no evento.
Construindo essa cultura dentro da comunidade científica
Como representante da SBBE e tendo participado anteriormente do programa de embaixadores da RBR, considero particularmente importante que essa discussão aconteça dentro das sociedades científicas.
A ciência aberta não se consolida apenas por meio de recomendações gerais. Ela precisa encontrar espaço nas conferências, nos periódicos, nos programas de formação, nas avaliações e nas próprias conversas entre pesquisadores. O SBBE26 mostrou que esse espaço existe.
A presença de mais de 200 pessoas em um simpósio sobre reprodutibilidade e a qualidade dos trabalhos reconhecidos na primeira edição do prêmio são sinais bastante positivos. Eles mostram que pesquisadores em diferentes estágios e atuando em diferentes áreas da Biologia Evolutiva estão interessados em discutir como tornar suas pesquisas mais transparentes, abertas e confiáveis. O próximo passo é transformar esse interesse em prática cotidiana.
A primeira edição do prêmio é, portanto, apenas o começo. Espero que ele se torne uma tradição da SBBE, que cada vez mais pesquisadores considerem a abertura e a reprodutibilidade desde o planejamento de seus projetos e que as novas gerações de biólogos evolutivos cresçam entendendo que fazer ciência de qualidade também significa tornar possível que outras pessoas compreendam, verifiquem, reproduzam e reutilizem aquilo que produzimos.
Afinal, ciência é um empreendimento coletivo. E quanto mais transparente for aquilo que fazemos, maior será a nossa capacidade de construir conhecimento sobre o trabalho de quem veio antes (e de deixar uma base melhor para quem virá depois).
Um abraço e fiquem todos com Darwin,
Matheus Salles
Pesquisador, Biólogo Evolutivo
Mais sobre o autor
Matheus Salles é pesquisador de pós-doutorado na Universidade Federal do Paraná (UFPR), onde também se formou como biólogo (Bacharelado e Licenciatura) e obteve seus títulos de Mestre e Doutor em Zoologia. Seu trabalho atual foca na Biologia Evolutiva, com ênfase na delimitação de espécies e no uso de inteligência artificial para resolver problemas biológicos diversos. Além disso, Matheus se dedica ao desenvolvimento e à divulgação da Biologia Evolutiva no Brasil, sendo membro fundador da Sociedade Brasileira de Biologia Evolutiva e seu primeiro Diretor de Assuntos Estudantis. Também já atuou como Embaixador da Rede Brasileira de Reprodutibilidade. Para além do meio acadêmico propriamente dito, tem um interesse especial pela comunicação de ciência, com experiência como produtor e revisor de materiais de divulgação científica.
E-mail: matheusmaciel.salles@gmail.com




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