O quão aberta é a ciência brasileira?
- Clarissa F. D. Carneiro

- há 5 dias
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Levantamento realizado a partir de dados compartilhados pela editora PLOS mostra onde o Brasil se destaca e como ainda pode melhorar no cenário mundial da ciência aberta.
Há alguns anos a Public Library of Science (PLOS) publica um banco de dados de indicadores de ciência aberta. Além de serem utilizados para comparar a adoção de práticas de ciência aberta em seus periódicos em relação a outros, os dados permitem diversas outras análises, incluindo comparações entre países e entre instituições.
Com essa perspectiva em mente, um pequeno grupo acaba de publicar uma análise detalhada da adoção de práticas de ciência aberta em publicações oriundas de instituições brasileiras. O trabalho foi realizado pelo estudante Matheus Nascimento (UFRJ), sob supervisão de Gabriel Costa (UFRJ, membro individual da RBR) e de Olavo Amaral (UFRJ, representante de grupo-membro e coordenador da RBR).
Compartilhamento de dados
O compartilhamento de dados abertos é o indicador de maior destaque no banco de dados da PLOS, sendo a prática de ciência aberta mais amplamente adotada entre os autores de artigos nos periódicos da editora. Artigos brasileiros seguem a tendência global de compartilhamento de dados, incluindo o crescente uso de repositórios de dados confiáveis. É importante ressaltar, porém, que o compartilhamento de dados é uma política mandatória das revistas do grupo – com isso, as porcentagens desse indicador não são representativas da frequência de compartilhamento de dados na literatura como um todo – em um grupo controle de artigos da mesma área das revistas da PLoS, as taxas têm oscilado entre 30 e 40% nos últimos anos.
Dentre as instituições brasileiras, destacam-se a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) no top 10 que mais publicam na editora e que compartilham dados abertos. Dentre as instituições que não têm tanta produção na editora, destacam-se a Universidade Federal de Santa Catarina e o Instituto Butantan com mais de 80% dos artigos incluindo dados abertos.
Compartilhamento de códigos
O compartilhamento de códigos é uma prática essencial para a reprodutibilidade e transparência de uma pesquisa, uma vez que permite a verificação e a validação dos achados de um artigo. Assim como no compartilhamento de dados, a taxa de artigos com códigos compartilhados também aumentou ao longo do tempo, tanto no Brasil quanto nos demais países. No entanto, essa prática em publicações oriundas de instituições brasileiras permanece consistentemente abaixo do patamar global ao longo de todo o período.

Destaca-se a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com 29% de suas publicações na editora tendo códigos compartilhados. A Universidade Federal de Minas Gerais (UMFG) e a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) aparecem logo em seguida, com 20% cada.
Publicação de preprints
Pré-publicações ou preprints são artigos disponibilizados abertamente pelos autores de forma independente do processo de revisão por pares. Menos de 25% das publicações em periódicos da PLOS a cada ano estão associadas a pré-publicações, e as taxas de adoção entre pesquisadores brasileiros são ainda menores.

Destaca-se a Universidade Federal do Rio de Janeiro, com 21% de suas publicações na editora associadas a uma pré-publicação. Outras instituições com taxas de pré-publicação acima da média nacional são a Universidade Federal de Uberlândia e a Fiocruz.
Pré-registro de protocolos
O uso de pré-registro em publicações da PLOS é a prática de ciência aberta com as menores taxas de adoção, tanto no Brasil quanto em outros países. Essas taxas podem ser relacionadas ao fato de que o pré-registro de protocolos vem sendo adotado de forma incipiente nas áreas do conhecimento amplamente cobertas pela editora.

Há também de se considerar que essa é uma prática mais fortemente associada a estudos que confirmam ou replicam outros achados, porém o formato não é restritivo nesse sentido e todos os tipos de estudos que coletam e/ou analisam dados podem possuir um pré-registro.
A análise também avaliou as taxas de compartilhamento de protocolos, que, assim como as de pré-registro, seguem incipientes no Brasil e nos demais países. A conclusão geral do relatório é que os artigos brasileiros publicados em periódicos da editora PLOS têm menor adesão às práticas de ciência aberta avaliadas quando comparados a todos os outros países.
Esse fato nos chama a atenção para o caminho que ainda temos que percorrer. A Rede Brasileira de Reprodutibilidade busca atuar de diversas formas para alcançar nossa visão: tornar a ciência brasileira mais confiável através da adoção de práticas de pesquisa abertas, responsáveis, rigorosas, colaborativas e reprodutíveis.
Como você pode contribuir para esses esforços? Considere se tornar um membro ou embaixador da Rede, navegue pelos nossos projetos em andamento e participe do nosso fórum de discussão no Zulip.








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