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Grandes colaborações, velhos problemas: autoria, reconhecimento e carreira na ciência aberta

  • Foto do escritor: Ana Carolina Marinho
    Ana Carolina Marinho
  • há 3 dias
  • 4 min de leitura

A ciência nunca foi tão colaborativa – e talvez nunca tenha tido tanta dificuldade em reconhecer, de forma adequada, o trabalho que a sustenta. Em um momento em que projetos multicêntricos, consórcios internacionais e grandes redes de pesquisa se tornam cada vez mais comuns, cresce também a dependência de atividades que raramente são reconhecidas no produto final da pesquisa



É fácil imaginar o que aparece na superfície: autores, resultados, tabelas, conclusões. Mas, mais difícil é enxergar tudo o que ficou nos bastidores até que aquele trabalho passasse a existir. Em grandes colaborações, a produção de conhecimento depende de diversas tarefas que nem sempre são visíveis no produto final esperado, como: alinhar equipes em fusos horários diferentes, adaptar materiais para contextos locais, documentar decisões metodológicas, organizar bancos de dados, revisar fluxos de trabalho, sustentar acordos coletivos. Esse trabalho é central para a ciência contemporânea, mas continua sendo reconhecido de forma desigual.

Foi com essa tensão em mente que participei, durante o encontro da Society for the Improvement of Psychological Science (SIPS) 2026, de duas sessões que, embora diferentes entre si, convergiam para o mesmo problema.

A primeira foi um hackathon realizado durante o evento, que coordenei em parceria com o Team Credit da FORRT. Em uma sessão colaborativa e intensiva de trabalho, pesquisadores se reuniram para refletir sobre o sistema CRediT e suas limitações para reconhecer a diversidade de contribuições que sustentam os projetos de Big Team Science.

A segunda foi um painel para o qual fui convidada a falar sobre a experiência de pesquisadores em início de carreira em grandes colaborações científicas. Juntas, as duas sessões mostraram como as discussões sobre autoria, reconhecimento e desenvolvimento de carreira estão profundamente ligadas à forma como a ciência colaborativa é organizada hoje e, portanto, à infraestrutura social e organizacional que sustenta a ciência aberta.

Participar dessas discussões também reforçou algo que eu já sabia: nós, pesquisadores de contextos historicamente marginalizados, precisamos ocupar os espaços em que se discutem e se decidem os rumos da ciência aberta e da reforma científica. Esses espaços também são nossos.

Ao longo das sessões e de todo o congresso, muitas das conversas sobre o aprimoramento da ciência simplesmente não contemplavam a realidade vivida por pesquisadores de países como o Brasil. Não porque houvesse, necessariamente, uma intenção explícita de excluir essas perspectivas, mas porque muitos participantes sequer conheciam as condições em que a pesquisa é produzida por aqui.

Questões como financiamento insuficiente, desigualdade econômica, precarização do trabalho científico, múltiplos vínculos empregatícios e diferentes formas de abuso institucional moldam a experiência de fazer ciência no Brasil. Esses problemas também existem em outros países, mas assumem características muito particulares no nosso contexto.

Enquanto muitas discussões internacionais giram em torno de como incentivar pesquisadores a adotarem práticas de ciência aberta, reprodutível e responsável, aqui ainda convivemos com desafios mais básicos. Fazer pesquisa em contextos como o brasileiro frequentemente significa lidar com financiamento insuficiente, acesso desigual a equipamentos e infraestrutura e condições de trabalho mais precárias. Na prática, isso pode significar não dispor de tempo e/ou apoio técnico para documentar e organizar dados adequadamente, preparar materiais para compartilhamento público ou traduzir instrumentos e protocolos para diferentes contextos. Essas limitações não apenas afetam a produção científica em si, mas também quem consegue ser visto, reconhecido e incluído nas transformações que hoje buscam aprimorar a ciência.

Foi só recentemente que foi determinado que alunos de pós-graduação não precisam devolver seu financiamento caso decidam não prosseguir com o mestrado ou doutorado. Em um sistema marcado por bolsas defasadas, sobrecarga de trabalho e ausência de direitos trabalhistas e previdenciários, quantos casos de abuso foram acobertados até então por essa e outras formas de vulnerabilidade?

Essas condições também afetam quem é reconhecido na ciência e de que forma esse reconhecimento acontece. Em grandes colaborações, pesquisadores de contextos menos privilegiados frequentemente contribuem com tarefas essenciais – como a adaptação de instrumentos, a construção de parcerias locais, a mediação cultural e a coordenação de atividades – que nem sempre se traduzem em autoria, liderança ou oportunidades de progressão na carreira. Tornar a ciência mais colaborativa sem discutir como diferentes formas de trabalho são reconhecidas significa correr o risco de reproduzir, em novas estruturas, desigualdades já antigas.

A presença de pesquisadores brasileiros em eventos, grupos de trabalho e espaços internacionais de tomada de decisão não é um “luxo”. Ela é uma condição necessária para reduzir vieses na construção das próprias soluções que pretendem melhorar a ciência. 

No fim das contas, quando discutimos como tornar a ciência mais aberta, transparente e justa, precisamos fazer uma pergunta fundamental:

Estamos aprimorando a ciência para quem?

Mais sobre a autora

Ana Carolina Marinho é mestra em Psicobiologia pela UNIFESP e recém-ingressa no doutorado, com trajetória interdisciplinar nas áreas de cognição social, neuropsicologia e psiquiatria. Atualmente, dedica-se à metaciência, com foco em ciência aberta, diversidade e metaciência críticas. Além de Embaixadora RBR, é Líder do Team Credit da Framework for Open and Reproducible Research Training (FORRT), atuando em iniciativas internacionais de formação, transparência e equidade em pesquisa. Tem experiência em divulgação científica, produção de vídeos e conteúdos acessíveis. Além disso, é filha de Anamaria e Rainey, irmã de Lucas e Cecília. Esportista, viajante, aventureira e especialista em criar boas playlists.

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