Alfabetização cientifica na era digital
- Natali LourenƧo Nascimento
- 6 de abr. de 2024
- 6 min de leitura
Atualizado: 24 de mai. de 2024
A alfabetização cientĆfica Ć© uma ferramenta para melhorar a compreensĆ£o pĆŗblica da ciĆŖncia, encorajando a aplicação de conhecimento cientĆfico nas decisƵes cotidianas e promovendo prĆ”ticas de pesquisa reprodutĆveis e transparentes para fortalecer a confianƧa na ciĆŖncia.
Por Natali LourenƧo Nascimento

Em um estudo realizado pelo Instituto de Internet da Universidade de Oxford em 2019, foi observado que conteĆŗdos falsos ou extremistas tĆŖm uma influĆŖncia surpreendente nas redes sociais, gerando mais interaƧƵes do que informaƧƵes verdadeiras. Isso Ć© particularmente evidente em plataformas populares como o Twitter e o Facebook. Outro estudo realizado por pesquisadoras de Juiz de Fora no estado de Minas Gerais, destacam o alto Ćndice de utilização do WhatsApp e do Facebook no Brasil. De acordo com os dados, 74,1% dos entrevistados afirmam que usam o aplicativo de mensagens móveis mais de uma vez por dia, e 55,4% declararam ter a mesma frequĆŖncia de acesso ao Facebook.
Além disso, frequentemente nos deparamos na literatura acadêmica com pesquisas que produzem resultados com tamanhos de efeitos insignificantes, ou cometem o erro de assumir que a inversão de uma hipótese é verdadeira, o que, na verdade, não se aplica a muitos campos do conhecimento, à exceção da matemÔtica. Para ilustrar essa diferença, podemos considerar um exemplo simples: Imaginemos que estamos avaliando um grupo de pacientes e chegamos à conclusão de que o uso da homeopatia estÔ associado à melhoria da saúde mental em determinadas condições. Não podemos concluir automaticamente o oposto dessa afirmativa como vÔlida, que toda melhoria na saúde mental estÔ relacionada ao uso da homeopatia, pois existem outras intervenções e fatores que também influenciam o bem-estar mental das pessoas, como prÔticas de autocuidado, terapias convencionais, entre outros.
O problema ocorre quando essas conclusƵes sĆ£o divulgadas de maneira sensacionalista ou imprecisa na mĆdia, criando uma falsa autoridade em torno de uma Ćŗnica perspectiva. Portanto, Ć© vital abordar essas questƵes com um olhar crĆtico e considerar todas as variĆ”veis envolvidas antes de tirar conclusƵes definitivas, assim como a verificação das fontes e dos responsĆ”veis sobre a informação. Muitas vezes, nĆ£o existe a reflexĆ£o sobre esses estudos antes de compartilhada a informação, e sĆ£o negligenciadas informaƧƵes fundamentais. Quem Ć© a amostra do estudo? Qual Ć© a idade? Nacionalidade? Etnia? Renda? Sexo? O estudo foi randomizado? Qual teste estatĆstico foi usado e como os dados foram tratados? Existem mais fatores que poderiam influenciar os resultados desse estudo diretamente? Qual Ć© o tamanho da amostra?
Por trĆ”s desse fenĆ“meno, existe uma dinĆ¢mica complexa que gira em torno de como as postagens com alto engajamento sĆ£o promovidas nas redes sociais. Isso acontece graƧas aos algoritmos de relevĆ¢ncia que impulsionam essas mensagens. Essa estratĆ©gia nĆ£o se limita apenas a grupos pĆŗblicos; ela tambĆ©m se estende aos grupos privados em aplicativos de mensagens instantĆ¢neas. Esse alcance expandido cria um ambiente propĆcio para a disseminação de desinformação, jĆ” que as postagens que geram mais interaƧƵes sĆ£o promovidas progressivamente, alcanƧando um pĆŗblico cada vez maior.
Para mitigar o avanƧo da desinformação tanto no meio acadĆŖmico como fora dele, uma forma para lidar com esses impasses seria a melhoria do Letramento ou Alfabetização Cientifica. O termo "Alfabetização CientĆfica" entrou no vocabulĆ”rio educacional em 1958, atravĆ©s de um artigo escrito por Paul Hurd chamado "Scientific Literacy: Its Meaning for American Schools." Ao longo do desenvolvimento do conceito de Alfabetização CientĆfica, tambĆ©m houve avanƧos significativos nas tentativas de medir esse conceito na população. Uma dessas tentativas foi realizada por pesquisadores sul-africanos, Laugksch e Spargo, em 1996, quando criaram o Test of Basic Scientific Literacy, ou TBSL. Este teste consiste em uma sĆ©rie de questƵes contextualizadas nas Ć”reas de QuĆmica, FĆsica, Biologia e SaĆŗde, apresentando situaƧƵes do dia a dia que podem estar corretas ou incorretas do ponto de vista cientĆfico. Os participantes sĆ£o convidados a dar sua opiniĆ£o sobre cada questĆ£o.
O TBSL foi criado com base na visĆ£o de Alfabetização CientĆfica de Jon D. Miller, cientista atuante no Centro de Estudos PolĆticos da Universidade de Michigan, que argumentava que um indivĆduo precisa ter competĆŖncias mĆnimas em trĆŖs Ć”reas para ser considerado alfabetizado cientificamente: entender os conteĆŗdos da CiĆŖncia, compreender a natureza da CiĆŖncia e perceber o impacto da CiĆŖncia e da tecnologia na sociedade e no meio ambiente. Em 1975, Benjamin Shein propĆ“s que a Alfabetização CientĆfica pode ser dividida em trĆŖs dimensƵes: PrĆ”tica, CĆvica e Cultural. A dimensĆ£o PrĆ”tica estĆ” relacionada Ć compreensĆ£o do cotidiano e Ć resolução de problemas comuns, com o objetivo de melhorar a qualidade de vida dos cidadĆ£os. A dimensĆ£o CĆvica envolve a capacidade de aplicar conhecimentos cientĆficos para compreender a influĆŖncia da CiĆŖncia no contexto polĆtico, social e ambiental. Por fim, a dimensĆ£o Cultural refere-se a cursos, debates e publicaƧƵes direcionados ao pĆŗblico sem formação cientĆfica que busca adquirir conhecimento nessa Ć”rea.
Uma prĆ”tica que pode ser desenvolvida tanto em salas de aula, como em qualquer meio educacional que se proponha a elaborar e/ou desenvolver habilidades em pensamento crĆtico e alfabetização cientĆfica na população, Ć© o treino dessas habilidades atravĆ©s de ensaios com foco argumentativo. Neste caso, deve ser dado ao aluno o conhecimento sobre o conceito de evidĆŖncia (precede a prova das afirmaƧƵes), validade argumentativa, se Ć© um argumento forte ou fraco, reconhecimento de falĆ”cias e a estrutura de um parĆ”grafo argumentativo.
AlĆ©m disso, pode ser acrescentado a proposta pedagógica, o ensino de prĆ”ticas indutivas, como tipificação dos dados, limitação do campo-abrangĆŖncia e constituição de amostra, explicação e formulação de hipóteses (explicar a evidĆŖncia, ser consistente com os fatos abordados e ser plausĆvel considerando o contexto) e investigação (planejamento da investigação com o controle de variĆ”veis, busca ativa por evidĆŖncias que suportem ou refutem as hipóteses abordadas e ceticismo reflexivo ao evitar vieses na interpretação dos dados). Assim, com tais tĆ©cnicas educacionais e habilidades sendo desenvolvidas, Ć© possĆvel que haja cada vez mais a introdução de novos membros na comunidade cientĆfica para subsidiar estratĆ©gias que auxiliem o debate sobre polĆticas que promovam a cultura cientĆfica contra Ć desinformação e prĆ”ticas de pesquisa mais transparentes, cooperativas e reprodutĆveis.
A participação ativa no debate pĆŗblico sobre os caminhos da ciĆŖncia tambĆ©m envolve a discussĆ£o da crise da reprodutibilidade de experimentos. Muitas vezes, o estudo Ć© publicado e sĆ£o aceitas verdades sobre tal experimento, porĆ©m eles nĆ£o fornecem informaƧƵes para que ele seja reproduzido em outras situaƧƵes. NĆ£o hĆ” informação sobre como foi realizada a transformação das variĆ”veis, limpeza de dados, intercorrĆŖncias com o piloto e ajustes, códigos aos quais as anĆ”lises foram submetidas e quais ajustes foram feitos no script durante o estudo, processo de divulgação e coleta etc. O processo do experimento Ć© tĆ£o importante quanto seus resultados, pois Ć© atravĆ©s da reprodução deste estudo que se pode realizar inferĆŖncias vĆ”lidas sobre um determinado fenĆ“meno. E tal crĆtica se estende tambĆ©m aos processos de revisĆ£o sistemĆ”tica e meta-anĆ”lise, pois independente da escolha do software de anĆ”lise, se o pesquisador/grupo de pesquisa nĆ£o se atenta a como foram feitos os estudos, de nada vale um conjunto de āevidĆŖnciasā coletados de forma duvidosa com uma metodologia pouco clara e fraca significĆ¢ncia estatĆstica.
A necessidade de promover o letramento cientĆfico e estimular a comunicação pĆŗblica da ciĆŖncia Ć© reforƧada pelo recente decreto que instituiu o Programa Nacional de Popularização da CiĆŖncia (Pop CiĆŖncia) e o ComitĆŖ de Popularização da CiĆŖncia e Tecnologia (ComitĆŖ Pop), no dia 25 de outubro de 2023. O programa enfatiza a importĆ¢ncia de desenvolver a cultura cientĆfica, combater a desinformação e promover o engajamento do pĆŗblico nas questƵes cientĆficas. AlĆ©m disso, ao considerar o impacto das redes sociais na disseminação de informaƧƵes, o programa propƵe o uso inovador de tecnologias digitais para promover a inclusĆ£o digital e a divulgação confiĆ”vel da ciĆŖncia. Portanto, o estĆmulo ao letramento cientĆfico e Ć participação ativa no debate pĆŗblico sobre ciĆŖncia e tecnologia sĆ£o estratĆ©gias fundamentais para enfrentar os desafios atuais relacionados Ć confiabilidade e reprodução de estudos cientĆficos, conforme discutido anteriormente.
ReferĆŖncias
Zhu M, Liu OL, Lee HS. The effect of automated feedback on revision behavior and learning gains in formative assessment of scientific argument writing. Computers & Education. 2020;143:103668. doi:10.1016/j.compedu.2019.103668.
BAPTISTA, Erica Anita, et al. A circulação da (des)informação polĆtica no WhatsApp e no Facebook. Juiz de Fora, PPGCOM ā UFJF, v. 13, n. 3, p. 29-46, set./dez. 2019.
DIĆRIO OFICIAL DA UNIĆO. Decreto NĀŗ 11.754, de 25 de outubro de 2023. Atos do Poder Executivo. 26/10/2023;204(1):19.
Miller, Jon D. Scientific Literacy: A Conceptual and Empirical Review. Daedalus, Vol. 112, No. 2, Scientific Literacy (Spring, 1983), pp. 29-48. Publicado por: The MIT Press em nome da American Academy of Arts & Sciences. DisponĆvel em: http://www.jstor.org/stable/20024852.
VIZZOTTO, Patrick Alves, e DEL PINO, JosĆ© ClĆ”udio. O uso do teste de alfabetização cientĆfica bĆ”sica no Brasil: Uma revisĆ£o da literatura. Ensaio Pesquisa em Educação em CiĆŖncias (Belo Horizonte), 22, 2020. Ā
Sobre a autora
Natali LourenƧo Nascimento
Mestranda em Psicologia Experimental pelo Instituto de Psicologia da Universidade de SĆ£o Paulo (IP-USP), cursando MBA em Data Science e Analytics na USP/Esalq, especialista em Auditoria e Compliance em SaĆŗde pelo Centro UniversitĆ”rio SĆ£o Camilo, bacharel em Enfermagem pelo Centro UniversitĆ”rio das AmĆ©ricas, membro do grupo de pesquisa NBS (No-Budget Science) focando no desenvolvimento de habilidade extra-acadĆŖmicas (softskills e hardskills) em doutorandos e egressos, participante da Rede Ā Brasileira de Reprodutibilidade (BRRN), membro da CIBA (Centro Ibero-americano) vinculado Ć CĆ”tedra JosĆ© BonifĆ”cio, focando na investigação sobre a cooperação entre Europa e AmĆ©rica Latina em tempos de polarização global e participante da FORRT (Framework for Open and Reproducible Research Training). E-mail:Ā natali.lourenco.nasc@gmail.comĀ ORCID: 0000-0002-7905-1171Ā
Raquel Freitag
Linguista, com mestrado e doutorado em LinguĆstica pela Universidade Federal de Santa Catarina. Professora do Departamento de Letras VernĆ”culas da Universidade Federal de Sergipe, atuando nos programas de Pós-Graduação em Letras e em Psicologia.
